…. nas leituras, nos fogos, na água, no calor insuportável, no notebook, no diário da viagem a Berlim, perdida em pensamentos inúteis, agora neste fresco a indiciar Setembro…
Por entre o luto da recusa de um projecto – é mais tristeza, porque não acreditei na aceitação pela falta de coerência do método e pela falta de ambição -, pelo luto da bolsa estar praticamente perdida, por entre as linhas da Ler e d’Os Meus Livros, por entre devaneios e pensamentos sem futuro, leio vagarosamente O Retrato de Dorian Gray, Memórias de Adriano (há muitos meses que ando a ler…) e Snow (também há meses a ler).
Não faz o meu género ler aos soluços, mas parece que se não for assim nunca mais os leio.
Memórias de Adriano é difícil por ser descritivo, contudo interessante por espelhar a mentalidade dos líderes da Roma Antiga. O imperador tinha uma cabeça tão aparente diferente no seu tempo (e também do nosso tempo), o seu fascínio pela Roma fora de portas, o seu quase desprezo por Roma dentro de portas, o seu interesse pelos filósofos Gregos… A ausência de diálogos torna-o o pesado. É um diário inventado pela autora, Marguerite Yourcenar. É tantas vezes um espelho da sociedade actual.
Snow é difícil de ler por ser em Inglês e pelos escassos diálogos. Interessa-me por ter a sensação que o texto é de alguma forma belo, quase poético – talvez ignorância minha do Inglês -, por abordar uma sociedade diferente que possivelmente anseia (pelo menos uma parte dela) por se colar à maneira de ser “moderna” da Europeia. Estou ainda nas primeiras páginas apesar de já terem decorrido meses, ou até mais de um ano, desde que ganhei coragem para o comprar. Estou muito curiosa em saber se o homem que no fundo parte para a sua terra natal, porque mete na cabeça que se quer casar com uma antiga amiga que não vê há muitos anos, consegue os seus intentos e se realmente esses intentos fazem qualquer sentido. Será que quer casar por amor ou não quer morrer sozinho e por isso decide casar com alguém “confortavelmente seguro” do seu passado. Sem vergonha de o declarar, acho que ainda não abandonei o livro, porque estou com muita curiosidade sobre a possível história de (des) amor.
Ler em Inglês é um pouco tortuoso, mas espero que se revele frutífero.
No meio dos devaneios sem futuro e dos meus lutos tento reencontrar forças para prosseguir o meu caminho sem grandes perspectivas de alguma segurança financeira ou emocional.
Sinto-me sempre a chegar à beira do abismo por esta insegurança que sinto.
É muito difícil prosseguir nos dias sem um objectivo claro a médio prazo. Não vislumbrar uma ideia de futuro tem sido árduo e bloqueador. Tenho esta sensação que me arrasto pela minha solidão – é um grave erro quem considera que não estou só, porque se o sinto é porque não me sinto segura com quem me rodeia, de uma forma ou de outra não me sinto segura. Seria um grave erro para mim própria se não o admitisse. É mais suportável admitindo como por vezes isso me pesa.
Talvez a vida seja sempre mais um passo para enganar a solidão. Talvez as leitura e os devaneios dos pensamentos sejam isso: sejam o melhor método que arranjei para enganar o facto de me sentir constantemente só, mesmo que por vezes esse sentir seja muito ténue, mas está sempre cá dentro e por isso os meus olhos sejam tristes, sempre tristes.
Sim, adoro gargalhar. Sim, ri-o algumas vezes em soltas gargalhadas, mas quando regresso ao silêncio sinto-me vazia, como se algo me faltasse. Sinto tantas vezes um buraco na alma no qual estou a cair e nunca páro de cair, estou a cair sempre… para dentro de mim. Para onde haveria de ser afinal?
A presença quotidiana de alguém que nos faça sentir seguros de alguma forma, que nos faça sentir Importantes e Úteis, que nos faça sentir confortáveis, ajuda-nos a prosseguir o destino “no mater what”.
Sinto muita falta de adormecer com ela, porque isso nos tempos menos difíceis era um grande conforto: era a ilusão de que nada de mal, pelo menos naquele momento, nos poderia acontecer. Essa ilusão faz-me uma tremenda falta.
E tudo isto é tão estranho, principalmente sabendo do meu lado racional, às vezes até incomodamente irracional.